Dona Madalena Martins Lima

José Geraldo Drummond Cenachi

Conheci a Dona Madalena logo que papai comprou o Sítio do Gambá. O curral, onde ele passava a maior parte do dia, ficava ao lado do casarão onde morava a Dona Madalena. Eram vizinhos, portanto. A compra de uma propriedade é uma operação penosa e demorada. Muitos detalhes têm de ser olhados. O principal deles é a vizinhança com quem se vai conviver. A busca de informações sobre a vizinhança do Sitio do Gambá quase levou papai a desistir de concretizar a sua compra, pois elas não eram lá muito agradáveis: As características indesejáveis se traduziam em pessoas que bebiam e, quando bêbadas, eram inconvenientes e, algumas até mesmo sádicas, cuja principal estratégia era judiar das criações dos outros vizinhos, com o intuito de expulsá-los de lá e ou vence-los pelo cansaço.  Geralmente pessoas que não eram toleradas pela família por serem implicantes e mesmo grosseiras também circulavam por ali. Muitas foram as vezes em que elas tornaram a vida dos que lá residiam ou trabalhavam um verdadeiro inferno. Tudo isso acontecia por falta de um líder na comunidade local, alguém que zelasse pela harmonia e bem estar dos que ali viviam. Essa carência levou as pessoas do mal a ficarem à vontade para exorcisar seus demônios em prejuízo dos outros.

Sendo este o único defeito apresentado para a compra da propriedade, papai resolveu enfrentar a situação. Pouco tempo depois da aquisição do Sítio do Gambá, por força de viuvez, Dona Madalena acabou se sobressaindo como líder naquele local. A região acabou ganhando apesar desse triste fato, pois ela com firmeza e determinação, porém com muito jeito, corrigia as pessoas cujos atos não eram aceitáveis. Por fim, com respeito e educação, Dona Madalena acabou colocando ordem naquela bagunça. Não se fazia de rogada. Coisa errada não passava despercebida pelos seus olhos e a harmonia prevaleceu no local. As pessoas com seus desvios reconheceram que tinham de recuar. Nessa época eu, José Geraldo, meus irmãos Gerson e Hélio, acompanhávamos papai no serviço pelo menos uma vez por semana. Ficávamos com ele um pouquinho, mas como não tínhamos vocação para a agricultura, desviávamos o nosso leme em direção ao casarão da Dona Madalena para brincar com os filhos dela, Luciano, Zé Maria e Rubião, que regulavam idade com a gente. Eu contava mais ou menos dez anos de idade, mas lembro-me perfeitamente bem, que Dona Madalena nos recebia como se fôssemos gente grande e isso era muito cativante. Pequenina, quase do nosso tamanho, olhos miúdos e de sabedoria profunda, magrinha, muito sensível e acolhedora, sorriso meigo, de fala macia, era mais anjo do que gente. Sempre parava o quê estava fazendo para nos fazer praça. Recebia-nos na cozinha que era enorme e tinha um fogão à lenha bem no meio. Muitas guloseimas para nos agradar. Boa contadora de “causos”!  Cada vez que íamos lá, ela vinha logo com um caso novo sobre seus vizinhos para nos contar.  A sua preferência era sobre os vizinhos, cuja característica principal era a inconveniência. Ela encarava com muito humor essa má sorte de tais pessoas. Contava-nos como vencia as brigas e, paralelamente, ensinava-os a arte de saber viver. Enérgica, trabalhadora e, certamente por ser mulher, foi muito mais visada por esses vizinhos abusados no autoritarismo, já que eram homens. Não estavam acostumados a respeitar homens, que dirá uma mulher pequena e franzina como A Dona Madalena! Deram demasiado trabalho a ela.  Nenhum deles levou qualquer vantagem. Todos tiveram de andar na linha. Se não fosse Dona Madalena uma grande mulher e de fibra, aquela baixada, nome que dávamos àquela região, seria um inferno por falta de quem enfrentasse esses infelizes.

O amável e amigável acolhimento que recebíamos dessa família marcou muito a minha infância. Foram tempos bons para mim e lembro-me, com muita saudade, dos dias que ali passei brincando com os, até hoje, meus mais queridos amigos. Demos muito trabalho e preocupação a ela, a querida e amada, Dona Madalena. Era de sua natureza agir como anjo da guarda de todo mundo. Tomava igualmente conta de: seus filhos, dos seus empregados, dos seus vizinhos etc. Gostávamos de ir nadar num poço que existia no córrego que passava atrás da fazenda. Era um poço perigoso.  Inclusive algumas crianças já haviam morrido afogadas nele. A gente ia, escondido, ao poço.  Mas, nem bem havíamos chegado e já tinha alguém, a mando dela, a nos impedir de correr tamanho risco. Nada escapava ao seu zelo.   Alguns anos depois, Dona Madalena mudou-se com a família para Belo Horizonte. A mudança para Belo Horizonte ocorreu porque os filhos cresceram e a região não oferecia perspectivas de desenvolvimento, oportunidade de emprego e nem de estudos se ali permanecessem. Foi uma decisão difícil e só uma pessoa com tamanha energia e coragem a tomaria. Mesmo tendo se mudado para Belo Horizonte, Dona Madalena não mudou em nada aquele seu jeito único de ser e de estilo de vida. Ajudava todo mundo e recebia a todos com grande calor humano. Recebia pessoas que, como eu, vinha tentar a sorte em Belo Horizonte, pessoas que precisavam fazer um tratamento de saúde, pessoas que vinham simplesmente a título de lazer. Todos nós sentíamo-nos em casa. Era uma casa alegre e sempre cheia, como se estivesse em festa todos os dias.

O primeiro conterrâneo que foi residir na casa de Dona Madalena chamava-se João Cabral . Figura humana, de muita grandeza, mas muito nervoso e bronquinha. Nunca entendia as brincadeiras e estava sempre ralhando ao lhe lembrarem as gafes cometidas. O pior que isso era sempre nos momentos em que a turma se reunia e jogava conversa fora. Contava a turma que ele, logo que chegou em Belo Horizonte, ainda quase que tateando a cidade com muito medo de ser atropelado, estava em frente à casa lotérica Campeão da Avenida.  Ele ficava ali à espera que os carros lhe dessem a oportunidade de atravessar a rua. Nesse mesmo local, até hoje, ficam muitos cambistas vendendo bilhetes de loteria. Eis que um cambista logo atrás dele, que já bronqueava pela demora da espera para atravessar sem que os carros dessem trégua, gritou: - olha a cobra! O pobre coitado do João cabral achando que era um animal lá de Rio Doce, saiu em disparada pela rua e o cambista que anunciava seu bilhete ficou sem entender nada, nadica de nada!   Por essa forte característica do João cabral, Dona Madalena preocupava-se muito em protegê-lo das brincadeiras que o tiravam do sério. Somente ela, pessoa tão hábil e de grande espírito humanitário conseguia dar-lhe conselhos.   Lembro-me de um belo dia em que o João cabral apareceu com dores no estômago.  Diante da insistência de todos, ele resolveu ir ao médico. Ao voltar do médico, estava mudo.  Só se comunicava através de gestos ou por escrito. Apesar da preocupação de Dona Madalena e curiosidade de todos os companheiros, essa atitude dele foi respeitada. Depois de uma semana, Dona Madalena não resistiu e quis saber dele a razão daquela mudeza toda. Ele, muito nervoso, tirou a receita médica da pasta e mostrou-a a ela. Observação: Recomendação médica escrita, lida e entendida por ele: evitar conversa. Dona Madalena, continuando a leitura, acabou dando um ataque de riso e, mesmo rindo muito explicou para ele: - Não João Cabral, o que está escrito aqui na receita não é para você evitar conversa, mas  sim  evitar conserva!

João cabral era extremamente prestativo e deu-me valiosas dicas para passar em concursos quando aqui cheguei. Inclusive forneceu-me as apostilas para me preparar para o concurso do Banco do Brasil, levou-me a vários lugares para eu me inscrever em outros concursos etc, A ele, in memorian, a minha eterna gratidão. Com essa ajuda passei em todos os concursos para os quais me candidatara, inclusive do Banco do Brasil, que era o concurso mais difícil da época.
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Voltando à Dona Madalena, por ser pessoa realizadora, proporcionou aos seus filhos melhor oportunidade de vida, assim como para muitos outros que tiveram o privilégio de conviver com ela em sua casa, cujas mães não podiam fazer o mesmo que ela. Considero minha vinda e permanência em Belo Horizonte como uma das decisões mais acertadas da minha vida.  Se não fosse a mão amiga que Dona Madalena me estendeu nada disso teria acontecido.  Recebi dela, uma super mãe, muita ajuda, assim como ternura e carinho de Helena, sua filha que faleceu precocemente. Por várias vezes, quando sentia que minhas forças se esvaíam e diante da volatilidade financeira que minava a minha esperança de continuar morando na cidade grande, ela me animava a persistir nesse sonho. O coleguismo de Zé Maria, otimista de natureza, bem humorado, sempre bem disposto, ensinou-me a andar na cidade e me distraía muito enquanto eu estava desempregado. Zé Araújo, espirituoso, muito teimoso, mais do que eu, trabalhador, conseguiu arranjar-me um emprego e dedicou-me muita atenção. Era mais teimoso que eu e brigava muito comigo. Uma forma de mimo peculiar que só ele tinha. Tudo isso foi determinante para que eu fincasse pé nesta terra e me fizesse gente. Apesar do dinheiro escasso para todo mundo nessa época, aprendi, pelo exemplo que me davam, que o acolhimento dos amigos, ter um lar, não ser diferenciado dos filhos desse lar, eram o bastante para eu ser feliz. O dinheiro não é importante, pois o que recebi deles não se compra, assim como a falta dele não é empecilho para quem, como eles, colocam o ser humano em primeiro lugar. O importante é pensar nas pessoas, e ajudá-las sem jamais impor-se sobre elas. Esse, o maior ensinamento e legado que essa família passa e continua passando com esse comportamento. Não tenho palavras para expressar a grandeza delas e com as quais tive o maior privilégio de conviver. 

Seguir exemplos como esses não é tarefa muito fácil, mas tentar é obrigação de todos. Infelizmente, hoje a prioridade é o poder!  Mas, quem conviveu com pessoas como essas e sobre as quais discorri, não fica nenhuma dúvida de que esse paradigma deve ser quebrado. Considero meu dever passar para os jovens esta minha experiência e aproveito a oportunidade para homenagear gente tão especial. Temos de valorizar a vida familiar. Se hoje sou gente, na época distante da minha própria família, devo a essa família que, apesar das vicissitudes a mim impostas, me acolheram e acreditaram em mim no momento mais importante de formação da minha personalidade. No convívio com essas queridas e amáveis pessoas, pude encontrar belos e bons exemplos, bondade e humanidade. Muito obrigado.  Obrigado mesmo e de coração!      

JGeraldo